terça-feira, 14 de abril de 2015

Cemitério de Varsóvia em Palavras

Hoje pela manhã, nossa primeira visita foi ao cemitério judaico de Varsóvia, um gigantesco campo que conta a história multi-secular de centenas de milhares de judeus que faziam da cidade a segunda maior comunidade judaica do mundo até as vésperas da Segunda Guerra.

Como Varsóvia foi totalmente devastada pelos nazistas e o Gueto inteiramente arrasado após o levante, em Abril de 1943, o cemitério é hoje um "arquivo de pedra" - o melhor registro da vida judaica na cidade através das gerações.

Caminhamos um pouco pelas estreitas vias do cemitério. Caminhos que parecem intermináveis, levando a miríades de sepulturas que se enfileiram desengonçadamente até onde a vista alcança. Sepulturas que revelam muito sobre a diversidade dos judeus de Varsóvia - algumas estão em hebraico, outras em Idish, polonês ou mesmo em alemão. Sepulturas que não conseguem esconder as condições de vida das gerações de judeus que aqui se instalaram - algumas que viveram com abundância e outras que, para chamar de miseráveis, teríamos de ser generosos com o uso da palavra, dada a ausência de adjetivos para qualificar o inferno que viveram.

O cemitério revela ainda muito sobre as tradições judaicas. O cuidado com a dignidade dos mortos, o respeito e a valorização da vida. Aqui estão enterrados grande rabinos e estudiosos, como o autor do Chemdat Shelomo e alguns dos principais líderes chassídicos da Polônia.

Vimos o túmulo de Adam Cherniakov, líder do Judenrat (pronuncia-se Yudenrat), o conselho judaico do Gueto de Varsóvia. Acurralado diante de um dilema - deportar seus irmãos, idosos, mulheres e crianças para a morte certa ou recusar-se a cooperar com os nazistas, o que poderia gerar consequências ainda mais graves - Cherniakov optou por tirar a própria vida. Em geral, quem o faz não tem um enterro honroso num cemitério judaico. Mas não foi o caso de Cherniakov: mesmo durante a guerra, recebeu um enterro digno e um túmulo especial - não se tratava de alguém que desprezou a vida e tirou a própria, mas de alguém que, diante do inimaginável e do inominável, gritou para o mundo e respondeu com as armas que dispunha. Não se pode louvar seu ato, mas tampouco se pode condenar. Somente quem calçou seus sapatos poderia julgá-lo...

Também aqui estão enterrados doutores, cientistas, escritores e poetas, como I. L. Peretz e o Ludwik Zamenhof, criador da língua Esperanto, idealizada para ser um idioma universal. No lugar onde menos se esperaria, no cemitério, aprendemos muito sobre a vida em Varsóvia durante gerações e gerações.  

Entrada do Cemitério - Netilat Yadáim

Cemitério de Varsóvia

Cemitério de Varsóvia

Tumúlo de Adam Cherniakov - líder do conselho judaico

Túmulo de Zammenhof - Craidor do Idioma Esperanto

Parede do Cemitério - Construída com Pedaços de Túmulos

Monumento a Janusz Korczak

Agora são 22:50h (17:50h no Brasil). Daqui a pouco escrevo posto mais sobre Tycocin, Lupochowa e Treblinka. Não esqueci. Fiquem ligados que daqui a pouco tem mais sobre hoje e sobre amanhã.  

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