sexta-feira, 17 de abril de 2015

Nossa Visita a Lodz

Hoje estivemos em Lodz. Nossa primeira parada foi o cemitério da cidade, onde aprendemos um pouco mais sobre os costumes relacionados ao cemitério, à dignidade do corpo e à santidade da vida. Aprendemos também no cemitério sobre a diversidade dos judeus de Lodz, em sua maioria trabalhadores de fábricas e industrias textêis, muidos judeus chassídicos  e uma família considerada das mais ricas da Polônia no auge da indústria em Lodz - os Poznasnky.

Ouvimos também no cemitério sobre um projeto que já dura anos, do exército de Israel para identificar e preservar a memória dos milhares de judeus que morreram no gueto de Lodz e não receberam uma Matsevá. Soldados vem para cá todos os anos, aprendem a história do lugar e produzem placas para os assassinados aqui com a maio quantidade de dados que conseguem recolher - nome, data de nascimento, data de falecimento. As vezes, conseguem apenas identifica um nome e, por vezes, nem isso. Todos os registros das mortes foram documentados pelos judeus que viveram no gueto, registraram os óbitos e enterraram os corpos, mas não alcançaram o "luxo" de colocar uma matsevá (lápide) com seus nomes sobre o túmulo.

Vimos então as valas que os nazistas obrigaram as centenas de sobreviventes do gueto cavar nos últimos dias da guerra, quando souberam da aproximação do exército vermelho. Os judeus começaram a cavar mas, também percebendo que o fim da guerra se aproximava, fugiram e seus algozes não ousaram persegui-los por temer o inimigo que se aproximava. Dos quase 150 mil judeus que foram levados para o Gueto de Lodz, pouco mais de 800 sobreviveram.

Trabalho de Identificação dos soldados do IDF

Vala Cavada pelos Prisioneiros

Do cemitério, fomos para o parque que homenageia os milhares de poloneses que arriscaram suas vidas para salvar judeus durante a guerra. Ainda voltarei a esse assunto - um terrível dilema moral dos que o holocausto impôs ao homem.

Fomo então conhecer o local onde ficava o Gueto de Lodz e seguimos para o Radegast - a praça de deportação de onde partiam os trens de Lodz. Lá, na estação de onde foram deportados centenas de milhares de judeus do Gueto de Lodz para campos de extermínio há uma locomotiva da época. Atrás dela, vagões de gado com pequenas aberturas laterais, o suficiente para entrar um pouco de ar, mas não para atenuar a sensação de clausura experimentada por quem entra.

Entramos no vagão. Nós somos apenas 35. E ficamos lá apenas por poucos minutos. Ainda assim, experimentamos o desconforto que o vagão proporciona. Nazistas forçavam nestes vagões, não raro, uma centena de pessoas. Sem pão e sem água. Sem banheiro, sem dignidade. Sem saber se viajariam por algumas horas ou por vários dias (e, às vezes, a viagem durava muitos dias). Não havia lugar para que todos se deitassem ao mesmo tempo.

Nesses vagões pais levavam seus filhos, por vezes, ainda bebês. Apinhavam-se nos cantos pessoas de todas as idades, confinadas como gado. Conviviam com os corpos dos que não resistiram, num apertado espaço fedorento, onde não havia banheiro ou privacidade. Idosos lutavam contra a fome, o frio ou o calor, alentados apenas pela esperança de que, talvez, quem sabe, aquele trem não os levaria para a morte, mas para algum campo de trabalhos ou outro destino - o que, com raras exceções, não acontecia.

(Para quem quiser conhecer essa triste realidade e seus dilemas, sugiro assistir "O Último Trem para Auschwitz", que conta a história de 688 judeus deportados de Berlin e sua viagem no trem).

Dentro do vagão, ouvimos explicações de nossa guia e refletimos a respeito do que poderia ser feito e o que poderia pensar alguém num vagão como esse.Lemos bilhetes escritos em vagões de trem por pessoas que, nas paradas, procuravam desesperadamente passar os bilhetes a alguém - um trabalhador da ferrovia ou um transeunte - na esperança de que fizesse o bilhete chegar a um ente querido. E se fosse possível escrever um bilhete e mandar para essas pessoas o que escreveríamos? Fizemos esse exercício - cada um escreveu para si um bilhete.

Passamos por um monumento - um comprido túnel em cujas paredes estão expostas as listas de nomes dos deportados para a morte. As listas são, por si só, um testemunho da crueldade e da eficiência da máquina de morte nazista. Catalogavam, pesquisavam e ordenavam o transporte e a morte de milhões. A humanidade já havia presenciado massacres, guerras e chacinas. Mas nunca antes na história se orquestrou com tamanha racionalidade e de forma tão sistemática o assassinato de milhões. E é nosso dever assegurar que nada que se assemelhe jamais volte a acontecer.

Visto de fora, o monumento se assemelha a um longo trem, no qual estão estampados os anos da guerra e que é puxado por uma locomotiva que se parece a uma chaminé de um forno crematório.

Monumento

Voltamos para o ônibus. Era hora de seguir para Varsóvia. Afinal de contas, hoje é Shabat.

Um comentário:

  1. Triste, muito triste. Fiquei com um nó na garganta...meus olhos se encheram de lágrimas...
    Façam uma boa viagem. Um beijo

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