Conto agora um pouco mais sobre nosso Shabat e sobre Varsóvia, pois foi durante esse Shabat que caminhamos pelas ruas da cidade e desvendamos um pouco de sua história. Ao contrário de Cracóvia, não há muito para ver em Varsóvia que tenha sobrado da época da Guerra - a cidade foi completamente arrasada pelos nazistas.
Varsóvia após o Levante do Gueto
Ontem à noite, fomos ao Kabalat Shabat na sinagoga de Noczyk (leia-se Nojik), a única que restou de pé na cidade após a guerra. É emocionante pensar que recebemos o Shabat no mesmo lugar onde, por gerações, milhares vinham derramar seus corações. Hoje a sinagoga continua ativa, transmitindo um clara mensagem: "Am Israel Chai" - O povo de Israel vive. Não são mais centenas de milhares de judeus em Varsóvia, onde, segundo contam, em uma única rua viviam mais de 80 rabinos. Hoje, em toda a Polônia não há mais do que 8 ou 10 mil judeus. Ainda assim, a sinagoga continua ativa e viva, aberta todos os dias do ano e reunindo pessoas do mundo inteiro que vem aqui conhecer o passado, vislumbrar o futuro e manter viva a memória dos que se foram.
Mas não era esse um Shabat comum. Impossível não se emocionar. A sinagoga, estava lotada, em sua maioria por jovens. Jovens de todo o mundo que cantavam e dançavam durante a reza, num ritmo sempre contagiante. Dançamos com eles. Nos emocionamos, já que era impossível não se emocionar.
Enquanto dançávamos, percebi, de canto de olho, que uma figura conhecida acenava para mim. Era o senhor Max Glauben, que conheci em Auschwitz e que gravou uma mensagem em vídeo para nosso grupo. Pensei comigo: "Nós estamos emocionados com esse Shabat tão alegre. O que deve estar sentindo esse senhor que viveu nessa cidade, que viu sua total desolação e aniquilação - o povo judeu em cinzas. O que deve sentir esse senhor, que deveria ter perdido a esperança no homem e no futuro do povo judeu, ao ver centenas de jovens, nessa mesma Varsóvia, cantando e dançando juntos, abraçados, alegres para receber um Shabat?". Fui cumprimentá-lo. Seu sorriso, que o fazia parecer um menino de 10 anos, era a melhor resposta para minha pergunta.
Voltamos ao hotel para jantar. Um jantar especial de Shabat (com direito a Coca-Cola) e com cantoria e animação. Depois do jantar ainda sentamos para um Oneg Shabat (curtir o Shabat), cantando melodias, canções e contando histórias.
Pela manhã, acordamos um pouco mais tarde do que de costume e saímos para conhecer a cidade. Nossa primeira parada, o novíssimo e fantástico museu judaico de Varsóvia. A exposição do museu, muito rica em conteúdo e recursos interativos, conta a história do judaísmo na Polônia durante quase mil anos. Réplicas de lugares, exposições sobre os diferentes períodos, a possibilidade de pesquisar sobre várias personalidades e muito mais - tudo cercado de uma arquitetura moderna, onde cada ambiente transmite também uma mensagem.
Após o museu, paramos para almoçar - mais uma refeição digna de Shabat - e seguimos para conhecer as rusa da cidade e o que sobrou do Gueto. O clima em Varsóvia frio neste shabat, hostil a caminhadas não ajudou muito. Por outro lado, a atmosfera inóspita que tornava desconfortável nossos passos também contribuiu para perceber melhor a tristeza dessa cidade, que perdeu mais da metade de seus habitantes há menos de um século. Daqui, 300 mil judeus foram deportados para a morte em Treblinka e assassinados porque judeus. Centenas de milhares de poloneses da cidade também foram assassinados pelos nazistas - é possível enxergar a sombra que o Holocausto lança sobre Varsóvia até hoje e basta um olhar mais atento para perceber que há dezenas de monumentos e marcos históricos espalhados pelas ruas, a maioria com o objetivo de preservar a memória de acontecimentos terríveis e que serão eternamente lamentados pela humanidade.
O frio aqui (e estamos na primavera!) também sempre nos faz pensar no que escreveu Primo Levi em seu livro "É Isto um Homem". Segundo ele, se a guerra durasse mais tempo, seria preciso inventar novas palavras ou um novo idioma. Afinal de contas, a palavra fome que utilizamos quando passa a hora do almoço sem que tenhamos tempo de comer algo não descreve o que sentiu um prisioneiro de um campo que durante 3 dias comeu duas fatias de pão velho e seco. A palavra frio (e hoje sentimos muito muito frio) não descreve o que sente um ser humano forçado a usar um pijama listrado e, sem casaco, caminhar na neve do rigoroso invernos polonês onde as temperaturas passam da dezena de graus negativos. Mas para nós foi uma dura tarefa caminhar hoje pelas ruas de Varsóvia.
Por isso, pouco sobrou do Gueto que, entre os anos de 1941 e 1943, os nazistas instituíram e para o qual todos os judeus da cidade e das cercanias eram obrigados a se transladar - o Gueto de Varsóvia. Somente um pedaço de muro aqui e outro ali e alguns poucos prédios que ficaram de pé.
O Gueto era enorme, o que torna ainda mais terrível imaginar a dimensão da tragédia. Seus muros cercavam 2.1% da área da cidade, onde foi confinada 30% da população. Onde antes moravam dezenas de milhares de poloneses (judeus e não-judeus), passaram a viver quase meio milhão de judeus. A superlotação, a fome, a miséria e a doença que mataram centenas de milhares faziam do Gueto um lugar que sequer podemos imaginar. A maior parte da comida do Gueto chegava através de contrabandistas, em geral crianças (que podiam esgueirar-se por aberturas no muro), pois a quantidade de ração diária que os nazistas deixavam entrar no Gueto estava calculada para não ser suficiente.
O frio já apertava muito quando chegamos ao hotel, às 19:30h, para jantar. Depois do jantar fizemos a havdalá, para encerrar esse inesquecível Shabat e depois, vocês já sabem, fomos ao Shopping, que um dia inteiro sem consumir já é suficiente....
Durante o Shabat, não postei no Blog e não fotografei. Serão imagens que ficarão somente gravadas em nossas mentes e nossas almas. Mas, para aqueles que anseiam em nos ver, compartilho um clip de nossa havdalá - diretamente de Varsóvia.

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