Acordamos cedo e superamos cinco horas de estrada para chegar a Cracóvia, no sudoeste da Polônia, cidade na qual agora pernoitaremos e para a qual dedicamos nosso dia de hoje. Cracóvia é bem diferente de Varsóvia. Diferenças históricas, da época em que esta cidade era a capital da imponente dinastia Jaguelônica e diferenças recentes, dado que o furor nazista destruiu Varsóvia sem praticamente deixar vestígios, ao ponto que aqui, a cidade parece intocada pela grande tragédia do século vinte. E motivos para isso não faltam: os nazistas fizeram de Cracóvia a capital do governo geral, instalando Hans Frank no Wawel, o castelo real. Certamente os nazistas preferiam sua capital organizada, limpa e intocada a administrar um país a partir de uma cidade imersa no caos e com seus prédios em ruínas. Além disso, aqui não houveram insurreições e levantes contra os nazistas na escala dos de Varsóvia.
No que concerne ao bairro judaico, há ainda outro motivo para tudo estar de pé: o gueto não foi criado no bairro judaico como em Varsóvia (aqui, os nazistas queriam essa área). Ao invés disso, os judeus foram forçados a sair de suas casas no bairro de Kasimiersz e atravessar a ponte sobre o Rio Vístula para chegar a Podgorsz, onde foram confinados em um Gueto. A primeira cena de "A Lista de Schindler" descreve bem esse momento. Os judeus saem com o que podem e suas casas são entregues a alemães - o próprio Schindler é visto na cena tomando posse de uma confortável casa cujos donos foram despejados. Isso tudo permitiu que as casas, lojas e sinagogas permanecessem de pé durante a guerra e perdurado até os dias de hoje.
Abaixo um vídeo com imagens do Gueto (fotografias) da época.
Fomos então conhecer o bairro judaico de Kasimiersz que permanece belo e intocado, como se jamais houvesse atravessado uma guerra ou mesmo um conflito. Fomos na mais antiga sinagoga, o Alt Shul, que data de 1407 (mais antiga que América!) e hoje é um museu. A sinagoga funcionou e prosperou até 1939. Os judeus haviam chegado em Cracóvia, onde foram bem recebidos pelo Rei Casimiro que lhes concedeu o privilégio de habitar na cidade em um bairro seguro, cercado por muros e com direto a auto-governar-se. Agradecidos, os judeus chamaram o bairro Kasimiersz em homenagem ao rei e passaram a ser súditos fiéis e emprestar suas qualidades para o desenvolvimento da Polônia.
Alt Shul
De lá, seguimos para a pequena sinagoga, conhecida como a sinagoga do Remá. Uma pequena casa que abrigou um grande mestre e seus alunos. O Remá (R. Moshe Isserles) foi um dos principais legisladores ashkenazim e marcou para sempre o pensamento e a lei judaica. Daqui de Cracóvia, sua obra se fundiu ao Shulchan Aruch (escrito por Iossef Caro em Israel) e conquistou o mundo judaico, sendo até hoje a principal referência legal dos judeus de origem ashkenazi.
A sinagoga está em reformas e atrás dela se esconde um pequeno cemitério onde descansam importantes mestres do judaísmo de diferentes gerações.
Entrando na Sinagoga do Remá
Sinagoga do Remá (em reformas)
Cemitério da Sinagoga do Remá
Conhecemos ainda a sinagoga Izaak e a sinagoga Tempel, de longe a mais pomposa. Ouvimos um pouco sobre as histórias dessas sinagogas e das pessoas que por aqui passaram.
Exterior da Sinagoga Tempel
Interior da Sinagoga Tempel
Em frente à Sinagoga Izaak
Em frente à Sinagoga Izaak
Fomos então para o Museu Judaico da Galícia que reúne uma exposição completa sobre os judeus do sudoeste polonês. Aí então fomos para o mais belo local de Cracóvia, a Stare Miasto (cidade velha). Aqui se estende uma das maiores praças centrais da Europa, onde o antigo é permeado de vida e de cores.
Museu Judaico da Galícia
Mercado da Cidade Velha
Stare Miasto
Visitamos ainda o local onde funcionava a fábrica de Oscar Schindler, hoje transformada em museu. Ainda fomo conhecer um dos poucos fragmentos do muro do Gueto que ainda permanecem de pé antes de ir para o grande monumento do Gueto na Umschlagptaz - a praça de deportação de onde os judeus de Cracóvia eram, como gado, enviados para campos de trabalhos ou diretamente para a morte nos campos de extermínio.
Fábrica de Schindler
Fábrica de Schindler
Trecho do Muro do Gueto
Trecho do Muro do Gueto
Monumento do Gueto
Já nos alcançava a noite. O cair da noite de hoje, que marca o início do dia do Holocausto. Nos reunimos com o grupo do Liessin, do Rio de Janeiro, para fazer uma cerimônia especial de Yom Hashoá no monumento do Gueto. Velas na mão e pensamentos na cabeça. Dissemos algumas palavras e algumas orações. Hoje é um dia dedicado à memória dos que se foram através das ações daqueles que aqui estão.
Cerimônia de Yom Hashoá
Cerimônia de Yom Hashoá
Cerimônia de Yom Hashoá
Chegamos finalmente ao hotel para jantar e nos preparar para amanhã: o dia da Marcha da Vida em Auschwitz. Mais tarde, se o tempo alcançar e a conexão permitir, postarei um vídeo com imagens de hoje. Continue com a gente.
Estou adorando acompanhar vcs. As descrições e fotos são motivo de emoção e alegria de ver nossos jovens tomando conciencia da realidade pela qual passaram seus avós e vários outros familiares. Tudo era história. ..agora mais palpável e real.Obrigado Daniel, é um prazer ler teus relatos.
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