Hoje, além de participar da Marcha da Vida, fomos conhecer os campos e os museus de Auschwitz e Birkenau. Por todos os lados, evidências das brutalidades nazistas, provas de seus crimes. Documentamos, fotografamos e guardamos em nossa memória. Sapatos, cabelos, roupas, artigos religiosos e de higiene pessoal - todas as evidências da monstruosidade que aqui teve lugar.
Talitot
Explicação sobre o processo de desumanização recém-chegado prisioneiro
Objetos de Uso Pessoal
A maneira como, metodicamente, tentaram desumanizar suas vítimas. Assustadoras quantidades de fotos, objetos pessoais a até mesmo cabelos das vítimas, usados pelos nazistas para confecção de tecidos. Cenas que provocam arrepios - uma janela para um período de trevas do qual somos agora testemunhas.
Aqueles que para o campo vinham eram orientados a fazer uma mala com seus objetos antes de serem deportados. Deveriam colocar nas malas o que tinham de mais importante e essencial. Em suas malas roupas, fotos, Talitot, sidurim, objetos pessoais e de valor. Os nazistas mandaram escrever seus nomes e endereços para que as malas lhes fossem entregues quando chegassem ao campo. Vimos pilhas de malas, com nomes e endereços cuidadosamente escritos com esmerada caligrafia por famílias preocupadas em manter seus objetos mais íntimos, por mães e pais que queriam acreditar que suas coisas chegariam novamente a suas mãos. Pais que quiseram trazer para cá carrinhos nos quais sonhavam embalar os filhos para que dormissem tranquilos à noite. Mal sabiam que destino os aguardava.
Ali estavam essas malas, na nossa frente. Nelas vimos estampados nossos próprios nomes, nossos sobrenomes. Nomes de nossos amigos. Nomes de pessoas que não conhecemos e que jamais conheceremos.
Malas que Chegaram a Auschwitz
Mas não estávamos lá sozinhos. Gente do mundo inteiro estava aqui. O mundo voltou seus olhos para Auschwitz hoje e para tudo o que aconteceu. O mesmo mundo que calou-se diante do que aqui ocorria há 70 anos, como disse uma vez sir Ian Kershaw: "A estrada para Auschwitz foi aberta pelo ódio, mas pavimentada pela indiferença".
Não há palavras em nenhum idioma humano que descreva Auschwitz. Primo Levi escreveu que, se a guerra durasse mais tempo, seria necessário inventar um novo idioma. A palavra fome, que usamos nosso cotidiano, não descreve o que sentiam invariavelmente os que viveram neste inferno. A palavra frio que usamos para descrever qualquer desconforto térmico não expressa o que sente quem sai ao relento numa noite do rigoroso inverno polaco e, sob neve, tem de caminhar e vestindo apenas um pijama, deve caminhar até outro barracão. Não temos palavras para explicar Auschwitz ou o que aconteceu aqui.
Fomos testemunhas oculares do processo de desumanização imposto metodicamente pelos nazistas. Chegavam ao campo e passavam por um processo de seleção – alguns eram condenados à morte, enquanto outros eram agraciados com uma provisória e frágil extensão da vida. Para os nazistas não era muito importante quem viveria: somente os números, as quantidades – o soldado já fazia questão de demonstrar sua indiferença para o homem sem rosto que desembarcava.
Aqueles que eram condenados a viver, passavam por um burocrático sistema, projetado para remover toda a humanidade dos que chegavam. Seus objetos pessoais, trazidos ingenuamente, na esperança de que poderiam comprar-lhe alguma vantagem, lhes eram tomados. Os de valor eram separados pelos nazistas. As fotos trazidas eram desprezadas e descartadas - suas memórias não tinham qualquer valor. Muitas vezes, tratava-se da última lembrança de um filho, de uma mãe, de uma esposa. Quem chegava era despojado de toda sua identidade individual.
Até mesmo o mais miserável mendigo, apesar do opróbrio, pode possuir um lenço, um livro, alguma sucata ou um guarda-chuva de segunda mão. Tudo isso era negado ao judeu. O único objeto que lhe era permitido possuir no campo: uma fina fatia de pão velho – apenas durante os cinco minutos em que esta ainda não havia sido vorazmente devorada. Todos nós temos objetos – que nos trazem recordações e refletem nossa personalidade – isso por que somos humanos.
O judeu então recebia um número e perdia seu nome. Todo homem tem um nome. Até mesmo animais de estimação, já que nos são queridos merecem ter um nome. Os animais domésticos são únicos, tem valor e por isso lhes damos nomes. Um nome que expressa quem somos. No campo não havia mais Moshe, Shmil, Sara ou Rebeca – passariam a ser tratados por números.
Seus cabelos então eram removidos. Os pelos de todo o corpo. Até mesmo um penteado, uma maneira de demonstrar sua individualidade, lhes era negado. Eram então vestidos com trapos esfarrapados, incapazes de proteger contra o frio, roupas que fariam um espantalho parecer elegante.
Dali saíam como zumbis. Se dissessem algo aos nazistas não seriam ouvidos. Se os ouvissem, não os perceberiam nem dariam qualquer atenção. Apenas um corpo magro com olhar vazio, lutando para manter viva na memória sua verdadeira identidade, seu nome, sua família.
Cerimônia de Yom Hashoá em Birkenau
Fotos encontradas no campo
"Sauna" - Processo de desumanização
Banheiros
Primo Levi, sobrevivente deste mesmo campo, escreveu um poema. Transcrevo abaixo suas palavras:
Vocês que vivem seguros
Em suas cálidas casas,
Vocês que, voltando à noite,
Encontram comida quente e rostos amigos,
Pensem bem se isto é um homem:
Que trabalha no meio do barro,
Que não conhece paz,
Que luta por um pedaço de pão,
Que morre por um sim ou por um não.
Pensem bem se isto é uma mulher:
Sem cabelos e sem nome,
Sem mais força para lembrar,
Vazios os olhos, frio o ventre,
Como um sapo no inverno.
Pensem que isto aconteceu:
Eu lhes mando estas palavras.
Gravem-na em seus corações,
Estando em casa, andando na rua,
Ao deitar, ao levantar;
Repitam-nas a seus filhos
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